
Antes de mais, quero agradecer à alminha peregrina que fez o favor de me estragar uma bela e longa manhã de sono com um telefonema às nove e picos da manhã. Se és o desgraçado do 91 em causa, agradece por não ter atendido e não te ter mandado para sítios muito feios!
Detesto telefones, telemóveis e todos os programas impessoais tipo Skype ou o mais que banalizado
messenger que nos permitem falar sem que vejamos a cara das pessoas. Não é assim tão grave quando não conhecemos as pessoas, mas detesto falar com quem conheço e já vi por estes meios. No entanto, gosto de escrever
emails e manter blogues. A diferença reside no facto de gostar de escrever textos ou artigos sobre o que quer que seja, ou "cartas", sem que estas se transformem numa conversa.
As pessoas que me conhecem sabem que raramente carrego o telemóvel (penso que estou há mais de três meses sem saldo) porque não sinto necessidade de o utilizar e tenho preguiça de passar numa
payshop, sabem que em tempo algum vou atender anónimos ou números que não conheço, a menos que me mandem mensagem previamente a identificarem-se. Sou o tipo de pessoa que já se fartou de publicidade, de contactos por parte das operadoras, que já inventou as desculpas mais esfarrapadas para despachar essa gentinha parva que quer impingir serviços à força toda (até já disse que a senhora Joana Margarida, a minha pessoa, se tinha reformado e emigrado!) e que a partir daqui qualquer tentativa dessas vai resultar em troca de galhardetes.
Também não tenho sempre o telemóvel comigo, e quando tenho o mais provável é não ter som. Por isso, quando olho para ele há sempre chamadas não atendidas e mensagens do século passado.
E a que se deve esta repulsa por tais bichos? Tal como já referi, não gosto de meios impessoais de falar com as pessoas. Gosto de ver a cara e as expressões das pessoas com quem estou a conversar e já está mais do que provado que isto das redes sociais,
chats e programas da mesma família normalmente fomentam confusões. Quanto aos telefones, isso não muda. Eu até me assusto quando tocam! E detesto escrever mensagens, tanto como detesto telemóveis novos todos xpto com câmaras fotográficas, jogos e mais não sei o quê. Tanto quanto sei, os telefones e telemóveis foram feitos para permitir às pessoas comunicar quando estão longe umas das outras. Para que é que fazem tanta mariquice?
Eu sei que os tempos mudam. Mas eu ainda faço parte de uma geração que se habituou a acampar desde os cinco anos com escuteiros sem uma única chamada dos pais! Era impossível comunicar e eu achava um espectáculo porque tinha acesso a uma liberdade que me faltava em casa. Uns anos mais tarde, os animadores começaram a ter telemóveis e à noite lá ligavam os papás todos preocupados a fazer uma série de recomendações aos filhos. Foi um estrago! Comecei a ter amigos com telemóvel e nem percebia qual era a necessidade de os ter. Era fixe?
Tive o meu primeiro telemóvel quando passei para o oitavo ano, quando tinha treze anos. Só mo ofereceram porque tinha mudado para uma escola pública num sítio relativamente problemático e os meus avós não podiam cuidar de mim quando não tinha aulas. Dois anos depois, ofereceram-me um telemóvel novo porque o primeiro estava a dar problemas e diga-se de passagem que o tal Nokia 7260 dos anúncios era lindo! Ainda funciona, cinco anos depois. Apesar disso, tenho outro telemóvel porque mudei de operadora: posso dizer que só falo ao telemóvel com uma pessoa, o meu namorado, que também é 91. E ele sabe o quanto eu detesto as telecomunicações e farta-se de me dar na cabeça por andar sempre incontactável.
Afinal, o que é que trouxeram os telemóveis? Chatices. Se antes podíamos andar à vontade, hoje temos as pessoas que se preocupam connosco a controlar-nos, literalmente. Se recebemos menos de três chamadas por dia a perguntar como estamos ou o que andamos a fazer, é pouco. Também nos trouxeram noites mal dormidas quando nos esquecemos de os desligar! Há sempre uma alma penada que se lembra de mandar mensagens, toques ou mesmo telefonar nas horas mais impróprias. E são sempre aquelas pessoas de quem não queremos saber! É o ex-namorado com mensagens sobre a vida amorosa dele justamente quando estamos bem acompanhados e a fazer coisas interessantes, é aquela colega parva a quem demos o número numa altura em que perdemos a cabeça a perguntar onde é a aula x ou qual é o trabalho de casa da disciplina y, é a operadora com aquelas mensagens maravilha sobre serviços e promoções ou avisos feios de carregamento, e poderia continuar a lista.
No fim disto tudo, os telemóveis nunca funcionam quando precisamos deles. Quem já esteve em sarilhos sabe como é: ou não há bateria, na volta não há rede, o saldo foge ou o destinatário não atende (se for uma pessoa como eu!). A minha mãe farta-se de me dar nas orelhas mas raramente atende quando preciso dela!
Já estive mais longe de deixar o telemóvel de lado. Graças a todos os obstáculos à comunicação, à invasão da privacidade, aos anónimos, às fuinhas que ligam a horas desengraçadas e às trafulhices das operadoras.
E ninguém vai conseguir mudar a minha opinião quanto a este assunto!